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 Uma revolução prepara o contabilista no mercado em altas

Nas duas últimas décadas muitas profissões tradicionais sofreram impactos decorrentes da chegada de novas tecnologias, das oscilações do cenário econômico ou das mudanças políticas e sociais. Algumas foram extintas ou quase extintas, como a de alfaiate, teletipista; outras passaram por transformações profundas, como a medicina e seu alto número de especializações; e algumas submetidas a uma verdadeira revolução. O caso mais emblemático de mudança tem sido o contabilista. Considerados uma das maiores legiões de profissionais liberais na América Latina, eles tiveram sua formação e atuação substancialmente alteradas por todos os fatores: tecnológicos, econômicos, políticos e sociais.

A tecnologia, com a informatização de processos, eliminou o trabalho braçal, como o registro manuscrito de livros contábeis ou a apuração de impostos com uso de calculadora. Até aqueles trabalhos lentos e altamente burocráticos, que demandavam filas intermináveis em repartições públicas, agora estão acelerados, via web.

A economia globalizada, por sua vez, trouxe aos contadores a exigência de uma linguagem contábil unificada, que permite a um empresário asiático, por exemplo, "ler" os resultados numéricos das empresas da América ou da Europa e fazer transações comerciais mais seguro de seus negócios.

Na política, a transformação ocorreu e vem ocorrendo principalmente junto aos órgãos governamentais de arrecadação de tributos e fiscalização. Cada vez mais ávidos por tributar e exigir informações de empresas e cidadãos, os governantes ampliaram sobremaneira o trabalho do contador, interface primordial nessa relação. Um meio de campo árduo e de grande responsabilidade.

Restou ao contabilista cumprir o papel social de ouvir os lamentos de um contribuinte exaurido e sem esperanças, que repassa quase 40% do que ganha para as mãos de quem governa e ainda trabalha para o governo, entregando um número cada vez maior e freqüente de relatórios em favor do conforto e agilidade da demanda fiscal.

Mas o saldo principal dessa revolução - opinião unânime dos representantes da categoria - é o de que não perderam seu espaço no mercado e, ao contrário, nunca foram tão necessários e importantes para a sociedade. São milhões de empresas, a maior parte micro e de pequeno porte, com alto índice de mortalidade, por falta de orientações contábeis e de gestão, analisa o presidente do Conselho Regional de Contabilidade de S.Paulo - CRC/SP, Luiz Antonio Balaminut. A importância do contador estende-se à própria estabilidade econômica do Brasil, onde a sangria financeira e a má gestão pública estão diretamente atreladas à falta do exercício pleno da contabilidade, atividade nem sempre pautada pela transparência e vontade política de seus governantes.

"Nós, profissionais, temos todas as ferramentas necessárias para o controle das contas públicas. Mas falta vontade política daqueles que governam", avalia Maria Clara Bugarim, presidente do Conselho Federal de Contabilidade - CFC. "Felizes os cidadãos de lugares cujos prefeitos e governadores já compreenderam a importância de um plano gestor", completa Balaminut ao lembrar as exceções que começam a surgir no País e tendem a elevar o profissional da contabilidade pública a um patamar mais digno e de excelência no desempenho de suas funções. Entre elas, a de planejar e orientar os gastos, investimentos e gestão dos bens públicos.

Campo fértil

A despeito dos percalços públicos, os contadores estão com a auto-estima elevada. "É uma profissão que, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, está em franca expansão", analisa Maria Clara Bugarim, presidente do CFC, órgão que regulamenta, fiscaliza e fomenta a educação continuada da atividade e tem em seus registros cerca de 390 mil profissionais. Um dos indicadores desse crescimento é o número de faculdades de ciências contábeis no Brasil. São 902 instituições de ensino superior que preparam contadores aptos a exercer várias atividades, entre elas a de auditor, perito, controller, professor e contador público.

Do universo de contabilistas registrados pelo CFC, cerca de 50% ainda são técnicos, aqueles que tiveram conhecimentos contábeis no ensino médio profissionalizante e ganharam prerrogativas que hoje estão sendo restringidas aos graduados em ciências contábeis, tais como fazer auditoria, perícia e assinar balanços. Esses cursos técnicos, na opinião do presidente do CRC/SP, Luiz Antonio Balaminut, tendem a mudar de nomenclatura, pois não compreendem mais o perfil contábil exigido pelo mercado: "O ensino técnico está mais para um auxiliar administrativo”.

Sebastião Luiz Gonçalves dos Santos, presidente do Sindicont-SP, Sindicato dos Contabilistas de São Paulo, que congrega profissionais da Capital e Grande São Paulo e corresponde a 65% da categoria no Estado, há cerca de dez anos a proporção de técnicos era bem maior: "Eles eram em torno de 70%". Hoje, com as exigências do mercado por um profissional com background mais consistente e eclético e, ainda, por perdas de algumas funções na condição de técnico, a busca pelo curso superior em Ciências Contábeis tem sido maior.

Perfil mais jovem

Artur Bueno, mestre em Ciências Contábeis pela FEA/USP e professor de graduação e pós-graduação em várias universidades em São Paulo, diz que a outra tendência no campo da formação do setor é o perfil mais jovem nos bancos da faculdade. Há mais ou menos vinte anos os estudantes tinham idade média bem superior a de hoje: "Mas, ainda que a contabilidade tenha alunos mais jovens, continua a atrair pessoas que já têm uma profissão, como advogados, administradores, economistas e até mesmo profissionais de marketing - todos buscam, tanto na graduação quanto na especialização de contabilidade, uma forma de complementar sua visão de negócio".

Ampara este fenômeno um cargo muito disputado pelos profissionais nas grandes corporações multinacionais. O de controller, um perfil com formação essencialmente contábil, mas com conhecimentos em economia, administração, marketing e gestão comercial. Este profissional, segundo o professor Artur Bueno, tem atuado de modo estratégico no planejamento e no controle do cumprimento de metas: "Ele aponta o dedo para os erros da organização e propõe mudanças, soluções".

O controller, segundo ele, ainda está sempre alerta às questões da carga tributária ao buscar, de modo permanente, a economia lícita, permissível por lei e que às vezes faz a diferença frente aos players do mercado. Além disso, o controller detém conhecimentos das normas internacionais de contabilidade e pode sustentar e amparar as negociações da empresa em vários países: "Não é por acaso que muitos controllers acabam se tornando CEO's (Chief and Executive Office, sigla usada internacionalmente para designar o cargo de presidência de grandes corporações)", comenta bem-humorado Artur para mostrar a importância do conhecimento do contador numa organização quando este exerce sua atividade de modo pleno e bem preparado.

Contador público em alta

O contador público, meio esquecido pela sociedade, voltou à cena com vigor nos últimos sete anos, depois da edição das leis federais Camata e de Responsabilidade Fiscal. A nova legislação impôs condutas mais rigorosas no trato do dinheiro público, com exigências de demonstrações contábeis mais claras. Elas estabeleceram limites e criaram mecanismos de controle dos gastos, impondo penalidades aos eleitos para o cargo executivo.

Para o professor Artur Bueno, elas vieram valorizar o trabalho do contador público e pressionar os governantes a serem co-responsáveis pelos gastos públicos indevidos durante a gestão: "Houve pressão da própria sociedade para se chegar a isso e também os próprios partidos políticos passaram, por força de lei, a exibir seus balanços, a prestar contas à população", explica o professor, lembrando que muitas das CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) hoje instauradas para apurar as denúncias de desvios de dinheiro público envolvendo o PT e outros partidos estão sendo pautadas pelos balanços contábeis que passaram a ser exigidos desde então.

O presidente do CRC/SP, Balaminut, também destaca a função social do contador público: "É o dever de equiparar o Brasil a uma empresa, que precisa ser bem administrada, com gastos bem controlados".


Esta e outras matérias você encontra no Portal da Classe Contábil.
http://www.classecontabil.com.br

 

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