
O
problema de saúde no Brasil é a falta
de dinheiro?
Primeiro
o progresso, depois a ordem
Na
bandeira nacional existe um dístico que é
“Ordem e Progresso”. Aplicado ao setor da saúde,
diria que a ordem refere-se à gestão
adequada e o progresso, à destinação
de recursos financeiros. Em minha opinião,
ainda não chegamos ao nível de uma priorização
excludente: ou ordem, ou progresso. Hoje, no Brasil,
no setor da saúde, para uma ordem mais justa
nos usos e costumes sociais, o investimento antecede
a ordem.
Qualquer administrador tem que definir o objetivo
que quer atingir e, em função disso,
decidir quanto e como investir para ser eficiente.
O objetivo do nosso setor de saúde estatal
é muito grande. É prover a melhor qualidade
de vida para todos. Por compromisso constitucional,
estabelecido na Carta de 1988, temos que atender às
necessidades de saúde e doença de cada
um e de todos os brasileiros.
Com a criação do Sistema Único
de Saúde (SUS), regulamentado em 1990, o compromisso
do Estado deixou de ser atender quem chega à
porta de um hospital – pouco importando quem ficava
de fora –, para buscar garantir saúde a todos.
Tal compromisso, que foi assumido há muito
mais tempo em países como a Inglaterra, exige
que o Brasil faça mais do que apenas o melhor
possível com os recursos já disponíveis.
Tendo que buscar tornar possível o necessário.
Ele tem que cumprir sua obrigação formal
de garantir qualidade em todos os serviços
que oferece. Com o SUS, o Estado assume o compromisso
ético de guardar a vida – o bem primeiro, indispensável
e fundamental –, como os profissionais da saúde
o fazem por meio do juramento de Hipócrates.
Com a criação do SUS, agregamos uma
infinidade de pessoas ao sistema e precisamos investir
para lutar pela inclusão efetiva de todos.
Não há dúvida de que é
necessário melhorar a gestão dos recursos,
mas é uma besteira dizer que não existe
necessidade de investimento.
Dou como exemplo o estado de São Paulo, em
que o sistema de saúde público atende
melhor a população. Houve um esforço,
a duras penas, para criar uma infra-estrutura de atenção
primária, secundária e terciária
que não existia e colocamos em funcionamento
mais de 4 mil leitos. Tudo para atender uma demanda
que, antes, era reprimida.
Muda a técnica de que o Estado só precisava
garantir a atenção primária e
entram os problemas mais graves. A criança
pobre, além de precisar de uma simples vacina,
também pode precisar de uma complexa cirurgia
cardíaca, caso nasça com um defeito
congênito.
Prover saúde para todos, em todos os níveis
de complexidade, representa uma necessidade premente
de recursos financeiros. É claro que se fôssemos
querer resolver isso da noite para o dia, gastaríamos
todo o dinheiro da República.
Mas há outras áreas importantes que
também precisam de recursos, como educação,
transporte, saneamento básico, habitação.
Temos, então, uma dialética do bem contra
o bem e é preciso fazer uma síntese
para progredir. Uma parte deve ir para a saúde
e uma parte deve garantir o que vem sendo chamado
de “espetáculo do desenvolvimento”. Indiscutivelmente,
o sistema de saúde precisa de mais recursos
e não havia antecedente para arcar com isso.
Agora, com o crescimento econômico, há.
Ao contrário do que parece, o setor não
é a cloaca do mundo em termos de gestão.
Basta lembrar os desastres no setor financeiro. No
Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação
e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional),
colocaram dinheiro para, então, corrigir as
falhas de gestão. Dizer que precisamos acertar
a gestão antes de colocar dinheiro não
faz sentido.
Já estudei o caso de um hospital específico
em que havia necessidade de uma injeção
de recursos. Repensamos a gestão e o montante
diminuiu, mas, ainda assim, foi necessário
mais dinheiro. Um recurso adicional é sempre
necessário, mesmo com a gestão ideal.
É necessário para chegarmos perto do
ideal estabelecido pela Constituição,
do qual ainda estamos muito longe.
Na saúde não tem tanto desvio: é
um dos setores em que mais se gasta. Se tem um escândalo,
não chega nem perto dos que andam por aí
soltos. Já houve ministro da Saúde que
saiu acusado de roubar verba de compra de bicicletas.
Se é que ele desviou esse dinheiro – uma quantia
que não era tão grande – deveria ter
saído do cargo pela incompetência, mais
do que pela questão ética.
É evidente que não podemos tolerar roubos,
desvios e má gestão. Não podemos,
inclusive, admitir que os governo não gastem
com a saúde aquilo que está previsto
nos orçamentos estatais. Mas é preciso
mais dinheiro e dinheiro certo, ou seja, que seja
entregue às instituições de saúde
com regularidade. O dinheiro certo é o princípio
para uma gestão certa.
Quando vejo argumentos de que é um erro fixar
a parcela destinada à saúde porque isso
pode levar ao descaso ou ao desperdício, penso
que é ignorância ou má fé.
O setor da saúde, historicamente, é
o primeiro que sofre cortes quando há dificuldades
financeiras – por isso mesmo é necessário
ter um mínimo de certeza sobre os recursos
disponíveis.
A cada crise econômica, era sempre a saúde
que sofria o corte. Tanto isso é verdade que
quem morreu não reclama. O morto não
vai reclamar de mais nada e mesmo seus familiares
ficam envergonhados de brigar por isso. O setor saúde
tem dificuldade de disputar com outros as verbas.
Apesar de a saúde aparecer muito durante o
processo eleitoral, não é verdade que
tenha força para garantir os investimentos
necessários.
A saúde precisa de fixação e
vinculação de recursos e de cumprimento
do Estado de direito. Se o que foi estabelecido fosse
cumprido, teríamos mais dinheiro. Não
sei se todo o necessário, mas teríamos
muito mais dinheiro.
Se está havendo progresso econômico e
o governo está arrecadando mais, por que parte
dessa receita não poderia vir para a saúde?
Eu era favorável à continuidade da CPMF,
mas ela ficou desacreditada como uma contribuição
social para a saúde. Não porque o dinheiro
arrecadado tenha sido, necessariamente, mal empregado,
mas porque, quando foi aprovada, a CPMF, por lei,
entrou como uma contribuição para a
seguridade social, um conceito que inclui outros setores.
Como ninguém fazia, por safadeza ou ignorância,
uma estimativa de quanto podia ser arrecadado para
a saúde, ficou mais difícil estabelecer
quanto dinheiro seria destinado ao setor. O que havia
de positivo sobre a CPMF era que ela não substituiria
outras fontes, seria um dinheiro adicional. Mas o
Estado, com seu poder financeiro, não precisaria,
para atender o setor, de um imposto específico.
Não precisaria criar uma celeuma em torno da
Contribuição Social para a Saúde
(CSS) numa espécie de retorno de algo, a CPMF,
que havia acabado de ser extinto. É preciso
decidir quais são os recursos destinados à
saúde e definir exatamente para onde vai e
como está sendo gasto o dinheiro. Existem recursos
– sabemos pelos recordes de arrecadação
– e queremos que eles sejam repassados de maneira
crescente, para que a saúde continue num progresso
contínuo.
José
Carlos Seixas
Médico sanitarista, é doutor em Saúde
Pública pela Universidade de São Paulo
e especialista em Administração Hospitalar.
Assessor técnico da Secretaria da Saúde
de São Paulo, já foi secretário-geral
e secretário-executivo do Ministério
da Saúde e chefe da Superintendência
do Controle de Endemias (Sucen).
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